A caridade é humilhante porque se exercita verticalmente, desde a cima; a solidariedade é horizontal e implica respeito mútuo.
— Eduardo Galeano

venres, 3 de maio de 2013

Manifesto e princípios

Manifesto por um Mar de Lumes

Um homem na vila de Neguá, na costa da Colômbia, pôde subir ao céu. De regresso, contou. Disse que tinha contemplado, de lá na cima, a vida humana. E disse que somos um mar de pequenos lumes.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de pequenos lumes.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as demais. Não há dois lumes iguais. Há lumes grandes e lumes miúdos e lumes de todas as cores. Há gente de lume sereno, que nem se inteira do vento, e gente de lume louco, que enche o ar de faíscas. Alguns lumes, lumes bobos, nem alumiam nem queimam, mas outros prendem a vida com tanta gana que não é possível olhar para eles sem pestanejar, e quem se aproximar, acende-se.


(Eduardo Galeano — O mundo)


1. Cada vez é mais difícil vermos com claridade no mundo, mesmo para quem mais teimamos em olhar, com muita atenção. Um ar tépido e negrusco chega dos depósitos de petróleo espoliados no Oriente Meio, dos barcos, aviões, estradas, caminhos de ferro pelos que os povos do mundo continuam a render tributo aos impérios. Os povos somos apenas peças rotas de um quebra-cabeças que manejam mãos alheias, num jogo com regras trampeadas e no que sempre ganham os mesmos. A guerra contra a humanidade é unha guerra contra a razão, que apaga pouco a pouco pequenos lumes em todo o mundo.

2. Pestanejar é acender os lumes. Unir as peças, reconstruir o puzzle. A solidariedade antes era uma mostra de generosidade; hoje é uma necessidade. Se ontem era um dever lutar contra a lógica imperial, hoje é uma questão de sobrevivência: local, nacional, regional, continental e mundial. Três campos fundamentais chamam a nosa atenção:

a) a constelação de movimentos sociais, revoluções, saltos e transformações que nos chegam da América Latina; a América de veias ensanguentadas que arrasaram os imperialismos hispano e português; a América que nos ensina lições a nós, invisíveis neste recanto da Europa, e que algum dia irá fazer frente ao vizinho abusador que tem a norte, que sempre se creu com direito a estender o seu pátio;

b) o mundo árabe e islâmico, espaço sulcado pelo colonialismo europeu durante anos, criminalizado pela imprensa ocidental e que deve exercer a sua própria voz e a sua resistência; todos os povos do mundo temos unha dívida pendente com os povos palestino e saariano, mas também com o iraquiano, o afegão, o líbio ou o sírio entre outros, agredidos com sanha por um imperialismo insaciável;

c) e finalmente essa outra Europa que nos furtam os meios de desinformação maciça; temos muitos nomes para a vestir lentamente a esta outra Europa tão desconhecida, para a encher de prendas humildes mas orgulhosas: a dos povos, a dos movimentos sociais, dos trabalhadores, da mocidade e das mulheres. Nomeadamente os novos povos que pretendem ser soberanos: a Irlanda, a Bretanha, os Países Catalães, a Córsega, a Ocitânia, Euskal Herria, e também o nosso, a Galiza.

3. Uma nação invisível também é uma nação imposível. Vivemos num pequeno país atlântico, de história, cultura e língua milenárias, que é invisível no mundo. Mas para chegar à ideia de invisibilidade há que reconhecer a existência do visível. Para falar da Galiza invisível há que pensar numa Galiza visível.

4. Pediram-nos madurez, resignação, conformismo ou rendição. Mas todo isso já o escutamos mutas vezes. Nós é que vamos falar de liberdade, de memoria e de futuro; vamos construir, no oceano da asfixia, uma pequena ilha de dignidade, uma minúscula Cuba de inconformistas.

5. Não vamos construir outra pirâmide. Construímos de baixo para a cima a democracia participativa que não se substitui por spots publicitários, pela tirania das marcas e o consumo.

Para avançar, em diagonal, en zigue-zague, mas sem intermitências. Colabora, contribui, aproxima-te deste pequeno Mar de Lumes. E que prenda o mundo!

***
Princípios

MAR DE LUMES — Comité Galego de Solidariedade Internacionalista é uma organização galega que trabalha no âmbito da solidariedade internacional, sob estes três princípios fundamentais:

COMBATE CONTRA O IMPERIALISMO

Rechaçamos e denunciamos a ingerência estrangeira, quer em forma de guerra quer atravês de outros meios, menos visíveis e espetaculares, mas igualmente daninhos para os interesses dos povos intervindos. Rechaçamos, portanto, todos os mecanismos pelos que o imperialismo é exercido: desde a NATO até ao FMI, o Banco Mundial, ou aquelas instituições que, disfarçadas de organizações solidárias ou para o desenvolvimento, empregarem a falsa solidariedade como elemento legitimador dos seus verdadeiros objetivos ingerencistas. No conflito entre o imperialismo e os povos invadidos, nós iremos sempre estar com os povos. Com os povos iraquiano, afegão, líbio, sírio, com o conjunto dos povos da América do Sul que decidiram deixar de ser o pátio traseiro dos Estados Unidos e da Europa, e com qualquer outro agredido pelo capitalismo imperialista. Aqui estamos.

APOIO AOS PROCESSOS DE EMANCIPAÇÃO

Partido das diferenças entre autodeterminação, independência e soberania e do reconhecimento de que cada povo tem direito à sua soberania plena, apoiamos todos os processos soberanistas das nações sem Estado no mundo, da África para a Ásia e a Oceania, da América para a Europa. No conflito entre os respetivos Estados e os povos que procuram a sua soberania, nós iremos sempre estar com os povos. Com a Palestina, com o Curdistão, com o Saara, com o Wallmapu, com o Quebeque, com Euskal Herria, com a Catalunha, com a Escócia, com a Bretanha, com a Córsega, com a Ocitânia e com tantos outros. Aqui estamos.

INTERNACIONALIZAÇÃO DO CONFLITO NACIONAL GALEGO

Somos uma organização galega de solidariedade. A nossa conceção da solidariedade exerce-se horizontalmente, de um sujeito político para outro. Requer, portanto, correspondência e diálogo. A projeção da causa da Galiza como nação negada pelo Estado espanhol é o terceiro ponto de apoio essencial da nossa organização. Porque é o facto de sermos um país espoliado e intervindo que nos dá o particular ponto de vista necessário para compreendermos em toda a sua dimensão a necessidade de tecermos redes solidárias e de explicarmos ao mundo que existimos, que não queremos continuar invisibilizados. Aqui estamos.